Começo com uma conversa entre dois jagunços do Grande Sertão - Veredas, do Guimarães Rosa. Um deles confidencia ao seu companheiro: ‘Matar eu mato. Mas nunca fico com raiva...’ O seu colega, duro de entendimento por lhe faltarem sutilezas psicológicas, não entende e pede explicação. O outro responde curto e grosso: ‘Quem fica com raiva leva o outro para a cama.’ Eu já disse que o ódio gruda mais que o amor. Você está amando... O amor é feliz, cheio de memórias bonitas. Você vai para a cama e dorme sorrindo. E sonha... Mas aí acontece algo, alguém lhe faz uma coisa que lhe dá muita raiva. A raiva toma conta de tudo, sentimentos e pensamentos. Não o deixa. Sua vontade é gritar, bater, destruir. É hora de dormir. Seus olhos estão pesados. Você quer dormir. Mas a raiva não o deixa. Você vai para a cama e ao seu lado se deita... a pessoa de quem você está com raiva. Você quer pensar coisas bonitas, quer pensar na pessoa amada. Mas aquela pessoa, ao lado, não deixa...
Pois é isso que está acontecendo comigo. Estou com muita raiva. E, por causa da raiva, estou levando para a minha cama pais, irmão, filho, médicos, etc.
Eu achava que eram meus amigos. Todos sorriam para mim. Paguei muito caro a minha ingenuidade. Há rostos sorridentes onde se escondem cobras. Descobri, na minha pele, que a realidade não é a amizade. É aquilo a que Marx deu o nome de ‘luta de classes’. A lição de política que não aprendi na universidade.
Assim, estou me tornando uma melhor observadora . Olhando para os olhos de pomba, fico preparada porque sei que lá dentro está aninhada uma cobra com bote armado.
Lembre-se de que as coisas mais inocentes podem, em juízo, ser invocadas como provas contra você
CRIS

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